Opinião

Lula - Duas opiniões, duas certezas

"A maldição lulista" é o tema de Jorge Oliveira. Já Luiz Ruffato trata de "O cinismo nacional mata o Brasil". Os autores são jornalistas e escritores.

<b>Reprodução</b> Lula
Reprodução Lula
Por Jorge Oliveira - Diário do Poder; Luiz Ruffato - El País Brasil
Publicado em 01/02/2018

A MALDIÇÃO LULISTA - JORGE OLIVEIRA

Barra de São Miguel, AL - Junte as peças de um quebra-cabeça e você vai perceber que o Lula é um grande manipulador e uma companhia maldita. Quem o acompanha acaba na cadeia ou na penúria. Muitos têm os seus dias de glória, mas, com o tempo, a estrela apaga. É o caso do ex-presidente do PT, o fundamentalista Rui Falcão, hoje no ostracismo, e de Zé Dirceu, condenado a 30 anos de cadeia. Lula tem a capacidade de transformar gente em marionetes. No momento dois estão no tablado falando por ele, andando por ele e protestando por ele: Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias. Indicados a postos chaves do partido, ambos falam como bonecos de costas ocas por onde passa a mão do ventríloquo.

Quem ficou perto do Lula nos últimos vinte anos acabou na desgraça. Até empreiteiros, antes intocáveis, vivem seus dramas de condenados. Políticos que se aliaram ao Lula estão presos, outros respondem a processos na justiça. Os tesoureiros do PT mofam nos presídios, a exemplo do João Vaccari Neto, isolado em um presídio de Curitiba. Condenado a 24 anos, conta os dias que faltam no calendário da parede da cela.

Lula, como sempre, até ser condenado a doze anos, negava tudo. Nega os próprios amigos, como, aliás, nega também o sítio, o triplex, o mensalão, as propinas da Petrobrás, o dinheiro ilegal da construção do Instituto Lula e a conta corrente da Odebrecht. Nega até os filhos atolados em corrupção.

Lula manipula muito bem os fanáticos da seita. Prestigia, dando-lhes cargos importantes no partido e depois exige que todos o defendam como cães raivosos. Manda que seus seguidores ataquem, provoquem e incitem a baderna para depois ele aparecer como conciliador. A velha tática funcionou até a última semana quando os desembargadores de Porto Alegre o condenaram a 12 anos em regime fechado. Ali, ele se revelou desobediente às leis do país. Mesmo assim, traçou a sua linha de ataque: Lindbergh, hidrófobo, saiu espumando em sua defesa, ameaçando reagir com violência, escorraçando a justiça e os desembargadores que atuaram na condenação do seu chefe.

Gleisi, coitada, vocifera contra todo mundo. Ameaça até matar as pessoas que são contra o seu pajé. Diz que a decisão da justiça é ilegal e que os três desembargadores combinaram a sentença. Não acredita em nada do que foi investigado, pois a cegueira do fanatismo a impede de enxergar um julgamento isento de paixão. Em comum aos dois o afago do Lula. Foi dele a ideia de transformar Gleisi em presidente do PT e Lindbergh em líder do partido no senado, pois tem certeza que pode manipular os seus dois bonecos de pano.

Esse filme do Lula é velho. A fita está arranhada. Pelas mãos dele já passaram outras marionetes que o ventríloquo manejou com habilidade. O ex-deputado André Vargas foi um deles. Chegou a vice-presidente da Câmara. Flagrado com a mão na massa, foi condenado a 14 anos de prisão. Zé Dirceu foi outro. Assumiu o governo de Lula com toda pompa. Depois de levar um chute no traseiro, vive atualmente de presídio em presídio, depois de condenado a 30 anos. E o Palocci? Palocci, médico, enganou como ministro da Fazenda. Já respondia a processos quando foi prefeito de Ribeirão Preto. Mas o Lula o vendia à elite como o mais habilidoso dos seus ministros. Na cadeia, condenado a 12 anos de prisão, tenta entregar o chefe.

E a Dilma? Bem, a “Mãe do PAC”, expulsa da presidência da república, vive por aí como uma maluca repetindo o mantra “é golpe, é golpe, é golpe”. Não sabe até hoje que foi presidente da república. E o Genuíno? O ex-presidente do PT está recolhido em casa, vive em profunda depressão, depois que foi condenado no mensalão a 6 anos de prisão por corrupção. O ex-senador Delcídio do Amaral, líder do PT, foi renegado pelos petistas tão logo caiu em desgraça. Delúbio Soares, ex-tesoureiros do partido, foi condenado a 5 anos de prisão na Lava Jato, está com tornozeleira e liberdade vigiada. Todos fazem parte do pacote da maldição lulista, que viam no chefe o curandeiro da tribo para todos os males. Imagine que até a mulher, Marisa Letícia, depois de morta, Lula a promoveu a investidora, dona do Triplex, para tentar se livrar da propriedade do imóvel.

Como se vê, a lista dos vivos encaminhados para o purgatório de Lula é extensa. Até morte houve, imagine. Os prefeitos de Santo André, Celso Daniel, e o Toninho do PT, de Campinas, foram silenciados depois que ameaçaram contar as mutretas de seus companheiros petistas nas respectivas prefeituras. Estão dormindo hoje em cova rasa. No caso de Daniel, a sua ex-mulher, Miriam Belchior, teve o silêncio comprado por cargos importantes no governo do PT.

Agora que você você sabe dessa pequena mostra dos que foram para o buraco na era lulista, pode imaginar que não existe apenas o “Pacto de sangue” feito por Lula com a Odebrecht como denunciou o Palocci. Na verdade, existe também a maldição lulista que cai impiedosamente sobre a cabeça dos seus companheiros.

“O CINISMO NACIONAL MATA O BRASIL" - LUIZ RUFFATO

No dia 18 de maio de 2006, o então governador de São Paulo, Claudio Lembo, filiado ao antigo PFL, hoje Democratas, um partido claramente de direita, disse, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, que o entrave para a solução dos problemas do Brasil residia no fato de termos uma “burguesia muito má, uma minoria branca perversa”. Lembo dizia que para atacar o problema da miséria deveria haver a criação de mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo, mais reciprocidade. E terminava afirmando: “O cinismo nacional mata o Brasil”.


Pois bem, o que estamos assistindo é o maior espetáculo de cinismo nacional de todos os tempos, patrocinado pela “minoria branca perversa”. E não estou me referindo à condenação sem provas materiais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – até hoje não sei se ele é ou não corrupto, pois seu julgamento, assim como o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, ocorreu num clima de culpabilização prévia. Em ambos os casos, o que estava em jogo não era uma questão jurídica, mas sim um posicionamento político sobre o Brasil.

Ao longo de sua história, o PT – liderado pelo ultrapersonalismo de Lula – afastou-se pouco a pouco de sua origem democrática e popular para tornar-se um partido ávido por ampliar suas influências – ou, nas palavras do insuspeito Frei Betto, o PT trocou um projeto de nação por um projeto de poder. Para isso, fez alianças com o setor mais retrógrado da sociedade brasileira – os evangélicos – e com o que havia de mais sórdido na política – o PMDB de Romero Jucá, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves e Edison Lobão, todos ministros de Lula, e Michel Temer, o vice que viria a liderar o golpe contra Dilma.

Nos 14 anos em que permaneceu no governo, o PT deixou-se envolver diretamente com a corrupção que sempre havia existido e que seus eleitores acreditavam que seria por ele combatida. Apeado do poder, o partido em momento algum aceitou admitir seus erros. Preferiu, de forma patética, exaltar os condenados José Dirceu e João Vaccari Neto como “presos políticos” e “heróis do povo brasileiro”, e “declarar guerra” ao boneco Pixuleco, que simboliza o ex-presidente Lula vestido com roupa de presidiário.

Mas não é contra nada disso que se indignaram o juiz federal Sérgio Moro e, depois, os desembargadores João Pedro Gebran Neto, Leandro Paulsen e Victor Luis dos Santos Laus, todos representantes da “minoria branca” de que falava Claudio Lembo. O que esteve, e está, todo o tempo em julgamento é a manutenção dos privilégios de classe que o Poder Judiciário hoje defende – os privilégios da burguesia branca que não aceita “abrir a bolsa” para a construção de um país mais solidário, mais justo, mais equitativo.

Apesar de todos os problemas e omissões – e que são muitos e muitas –, Lula organizou o melhor governo de todos os tempos da história brasileira, tanto para os pobres como para os ricos, a ponto de se ajustar muito melhor a ele aquela máxima atribuída ao governo de Getúlio Vargas, segundo a qual ele tinha sido o pai dos pobres... e a mãe dos ricos... E essa afirmação pode ser aferida: ao deixar o governo, após oito anos de mandato, Lula tinha 87% de aprovação, e hoje, oito anos depois, mantém ainda um resíduo de 36% das intenções de voto.

No governo Lula, passamos a ser a sétima maior economia do mundo; o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu a uma média de 4,15% ao ano; o salário mínimo teve um aumento real de 80%; a taxa de desemprego caiu a 4,3%, o que é considerado pleno emprego; o Brasil zerou a dívida externa considerada impagável; o coeficiente de Gini, que mede a desigualdade, melhorou substancialmente; o percentual de jovens de 16 anos com diploma de ensino fundamental subiu de 57% para 74%; foram criadas 14 novas universidades públicas; foi implementado o Estatuto do Desarmamento; e, mais importante que tudo, deixamos de figurar no vergonhoso Mapa da Fome.

Mais de 35 milhões de pessoas, entre 2002 e 2010, subiram para a Classe C – famílias com rendimento médio entre 2,5 e 11 salários mínimos –, o que significa que passaram a consumir produtos antes inalcançáveis – carros, eletrodomésticos, televisores e celulares de melhor qualidade -, e a frequentar lugares antes proibidos, como aeroportos, restaurantes, shoppings, e, principalmente, universidades, por meio das cotas raciais e sociais. Mas a “minoria branca perversa”, ainda que também usufruísse do boom econômico, nunca engoliu a ideia de ter de dividir esses espaços privilegiados com seus “serviçais”.

O golpe que destituiu a presidente Dilma Rousseff e o golpe que retira do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a possibilidade de se candidatar a um novo mandato este ano são frutos da mesma lógica de ressentimento da nossa elite branca. O presidente não eleito, Michel Temer, tem se esforçado para, em seu curto governo, eliminar qualquer resquício dos pouquíssimos, mas fundamentais avanços obtidos no período do lulopetismo. Por meio da reforma trabalhista, precarizou as relações empregatícias a níveis impensáveis; por meio da reforma previdenciária, em andamento, inviabiliza o sistema público de amparo social. Devolve, assim, os pobres aos seus devidos lugares, de massa subalterna...

Claudio Lembo afirmava, em sua já citada entrevista, que o cinismo nacional poderia ser sintetizado no fato de que, ao abolir a escravatura, no final do século XIX, o Estado brasileiro indenizou os senhores, não os libertos. Não é diferente o que Michel Temer anda fazendo hoje, exatos 130 anos depois... Uma prova cabal de que, infelizmente, aqui o termo “capitalismo selvagem” não é uma metáfora e sim a nossa realidade cotidiana...