Opinião

Chico, Lula e o eco

No poder, o estado-maior da corrupção especializada resiste. Mas só Lula é odiado

<b>Reprodução</b> Chico Buarque e Lula
Reprodução Chico Buarque e Lula
Por Arnaldo Bloch - O Globo
Publicado em 07/01/2018

 

Originalmente, essa crônica seria uma leitura do belíssimo novo show de Chico Buarque, que teve sua estreia carioca na última quinta-feira. Mas, em tempo, a última ficha caiu: a crítica de Leonardo Lichote, que fora assistir à première de beagá em dezembro, neste jornal, dissera tudo o que eu pretendia escrever e ainda mais, interpretando o espetáculo como um desabafo temperado e generoso contra a estupidez com que Chico se vê tratado, nas ruas e nas redes, por furiosos detratores. Um desacato com mãos de veludo e potência de gênio artístico.

Então decidi virar o disco para o Lado B e pegar uma carona analítica no coro do público que, antecedendo ao terceiro bis, entoou um “Olê olá” que não foi o da famosa canção de Chico, mas um slogan que ecoara nas ruas em priscas eras: “Olê, olê, olê, olá/Lula, Lula”. As cortinas estavam já fechadas, Chico voltou, mas não fez menção a Lula, embora o avô pernambucano de “Paratodos”, canção escolhida para encerrar, tenha feito pensar no operário nascido em Caetés.

Não vou tomar partido, de saco cheio que estou de todos os espectros da nossa política. Por mim, condenar-se-ia, com as piores mesóclises possíveis, a totalidade dos que se lambuzaram noite e dia, em caravana, sem seletividades. Prefiro, então, permear minha neutralidade com memórias, usando o fato de que, em 1/1/2018, e a poucas semanas de seu julgamento, completaram-se 15 anos da posse de Luiz Inácio da Silva. Eu estava lá, como repórter, cobrindo o clima em Brasília para o GLOBO. (Só para constar: no mesmo mês, também há 15 anos, eu fazia minha estreia como colunista do jornal neste espaço, aos sábados).

O país estava inebriado por “Lulinha Paz e Amor”, pela Carta ao Povo Brasileiro, e comovido com a chegada do primeiro operário ao Planalto, algo bem diferente das hipócritas cerimônias de láurea do “Operário Padrão”, promovidas pelos generais. Lula, porém, era ao mesmo tempo um prócer da luta contra a ditadura e, ironia, o preferido dos próprios militares, por seu perfil moderado, para liderar uma “luta de classe” que já nascia domesticada.

Não houve brasileiro que não estivesse emocionado. Ao pé da rampa do Planalto, o abraço de Fernando Henrique em seu ex-companheiro de lutas (FH declarara apoio a Lula, contra a candidatura de seu próprio correligionário, José Serra) era caloroso e sincero, e, logo mais, a troca de faixas, toda desajeitada, traía um nervosismo lacrimoso. Assim era o clima em Brasília: um alívio catártico, de dever cumprido, uma dívida que a nação tinha com os despossuídos e que, a partir dali, esperava-se, começaria a ser paga.

Corria até uma metáfora sórdida: com um apoio gigantesco e exaltado por seu bom comportamento (“não” às rupturas), todos os abastados estariam prontos a lhe “dar um dedinho”, em alusão preconceituosa ao acidente de trabalho que Lula sofrera em seus tempos na metalurgia. Não demoraria muito para ficar claro que o presidente não esperava tal sacrifício: abraçaria o capital como um conservador e faria da continuidade sua marca.

Depois, com o Bolsa Família, ampliação em progressão geométrica de um programa do governo anterior, teria o mérito de, pela primeira vez, fazer valer a vontade política para provocar uma real mobilidade social. A “Nova classe C” virou um case incontornável, e não havia força produtiva que não se visse forçada a realinhar-se com um contingente enorme que chegava ao consumo.

Paralelamente a esse movimento, ocorrido num cenário favorável de crescimento, Lula, contudo (exatamente como FH) não promoveu reformas estruturais ambiciosas, mesmo chegando ao final do primeiro mandato com 87% de popularidade. Ele havia chorado ao assinar sua posse, dizendo que aquele era seu primeiro diploma. Pois perdeu a chance de fazer uma revolução pela educação. Não fez caminhar qualquer iniciativa de reforma política (assim como FH, repita-se). Aliou-se à pior escória (assim como...) e disse à nação que era preciso pôr a mão na lama. Levou sua estratégia de conciliação a extremos que arrepiaram os cabelos de toda uma horda de simpatizantes.

Deu no que deu. Agora, 15 anos depois, é óbvia a gana com que se vai à sua caça. Há centenas de políticos altamente comprometidos com a corrupção, incluindo ex-presidentes e um presidente. A máscara do tucanato caiu. No poder desde a queda de Dilma, o estado-maior da corrupção especializada resiste. Mas só Lula é odiado. Isso se deve a seu lapso moral, à sua vaidade, à sede de poder, às mentiras e aos deslumbres. À terrível decepção de quem esperava mais grandeza do operário que ascendeu ao poder. Mas também ao ressentimento de quem, no fundo, jamais engoliu ver o operário subir a rampa. Não é algo que se confessa nem para si. Não é algo que se pensa. É algo que se sente.

No show de Chico, aquele coro de outros tempos entoado antes do bis (metáfora do desejo de repetição) era a evocação quase religiosa de um sonho que se desfez. Possibilidade remota, mas ainda não enterrada, um bis de Lula seria uma canção datada, no breu que tomou conta do palco nacional. (6/1/2018)