Opinião

Por que resiliência importa hoje mais que nunca?

Em muitos aspectos, resiliência trata fundamentalmente de desastres. Também nos referimos aos desastres de longo prazo e de ação lenta que enfraquecem uma cidade ao longo do tempo. Pobreza, violência endêmica, sistema de transporte inadequado etc.

<b>Reprodução</b> Projeto 100 Cidades Resilientes
Reprodução Projeto 100 Cidades Resilientes
Por Michaek Berkowitz
Publicado em 27/11/2017

O que é resiliência e por que hoje ela importa mais do que nunca?

Em muitos aspectos, resiliência trata fundamentalmente de desastres. Mas não estamos falando apenas da capacidade de se recuperar de desastres repentinos – como incêndios, terremotos, inundações – que em geral são associados com a palavra. Também nos referimos aos desastres de longo prazo e de ação lenta que enfraquecem uma cidade ao longo do tempo. Essas tensões – pobreza, violência endêmica, sistema de transporte inadequado – são persistentes e tão perniciosas quanto os desastres repentinos.
Basta olhar para o seu jornal dessa manhã para constatar que as cidades hoje estão enfrentando desafios tectônicos – de refugiados e migrações à disseminação do Zika, até desastres naturais como o furacão Matthew, que têm ocorrido com uma frequência alarmantemente maior. Ao mesmo tempo, surgem oportunidades extraordinárias. Uma aliança global anunciou compromissos inéditos com o enfrentamento da mudança climática com um gasto que pode chegar a US$ 90 trilhões ao longo do próximo século.
Estamos aqui para assegurar que as cidades obtenham o máximo de cada dólar gasto, seja com a mudança climática seja com outro desafio – e que foquem em resolver múltiplos problemas de uma vez, pois aumentar a força em várias áreas vai ajudar as cidades a sobreviver e prosperar diante dos choques e tensões do século 21. E é disso que se trata. Ajudar as cidades a se tornarem mais fortes tanto nos períodos bons quanto nos ruins; garantir que elas possam se reconstruir melhores na superação dos desafios que enfrentam, e que elas estejam preparadas para lidar tanto com o esperado quanto com o inesperado.
Embora a iniciativa 100 Cidades Resilientes exista há apenas 3 anos, já é possível ver que a resiliência está funcionando – e que as cidades estão começando a institucionalizar e tornar permanente esse trabalho, para além dos limites de seu relacionamento com a nossa organização. Como preparação para esta semana, elaboramos um relatório sobre esses avanços, que divulgamos no domingo passado.
A resiliência está entrando na corrente sanguínea das cidades, da sociedade civil e das empresas do setor privado e fluindo para lugares novos e estimulantes. Quero chamar a atenção de vocês para três breves exemplos.
Vamos começar com Nova Orleans, a cidade americana devastada por anos de tensão social e destruída pelo furacão Katrina em 2005. Em 2015, a cidade lançou uma estratégia holística de resiliência que provou ser seu roteiro para um futuro melhor. A estratégia hoje é tão central nas tomadas de decisão da cidade que foi feita uma alteração formal em seu processo orçamentário para inserir no orçamento as prioridades da estratégia de resiliência. E o prefeito Mitch Landrieu, que está muito imbuído do valor da construção de resiliência, promoveu o seu secretário de Resiliência, Jeff Hebert, para servir simultaneamente como uma espécie de primeiro vice-prefeito, colocando Jeff no topo da hierarquia entre os conselheiros do prefeito.
Jeff e sua equipe são os consultores de resiliência da cidade, com a tarefa de aproximar-se das secretarias do município, da comunidade empresarial e da sociedade civil, e ajudar a introduzir a mentalidade da resiliência em seus projetos e prioridades. E essa abordagem – de institucionalizar a resiliência – já está dando retorno. Nova Orleans ganhou US$ 141 milhões do Concurso Nacional de Resiliência a Desastres, uma iniciativa de concessão de subvenções do governo dos Estados Unidos para ajudar comunidades a melhorar suas capacidades de superar futuros desastres. E a cidade ganhou um Prêmio Nacional de Excelência em Planejamento da American Planning Association, que elogiou Nova Orleans por abordar a igualdade social em conjunto com questões ambientais e a prontidão para agir em desastres.
Temos percebido que os prefeitos não estão apenas dando poder a seus secretários de Resiliência com mais autoridade e recursos, em algumas cidades vemos que essa perspectiva transcende as alianças políticas.
Considere a cidade de Tessalônica, Grécia. A secretária de Resiliência da cidade é também a vice-prefeita, um posto que lhe dá as ferramentas e a influência necessárias para impulsionar essa agenda. Mas o que é realmente impressionante é que o partido de oposição indicou o primeiro vice-prefeito “paralelo” para resiliência do mundo. A criação da “secretária de Resiliência paralela” demonstra que a resiliência ganhou uma força estável – e mesmo se a atual administração municipal deixar do poder essa agenda continuará sendo uma prioridade.
A última cidade que eu quero destacar hoje é Porto Alegre, Brasil. Como Nova Orleans, Porto Alegre tem um secretário com uma dupla função, que além de cuidar da pasta de Resiliência também serve como secretário de Governo local. Este ano, as cidades no Brasil tiveram eleições municipais, o que poderia ameaçar o futuro institucional do trabalho com resiliência em Porto Alegre. Mas a Secretaria de Resiliência transformou esse desafio em oportunidade. Convocou os candidatos à prefeitura, e assegurou a promessa de 8 entre os 9 concorrentes ao cargo de prefeito de dar continuidade à implementação da estratégia de resiliência, honrar o compromisso da atual administração de investir 10% do orçamento da cidade em resiliência e manter a equipe da secretaria de Resiliência.
A resiliência não está apenas sendo institucionalizada em governos municipais ao redor do mundo, também ganha cada vez mais importância no setor privado.
Um de nossos objetivos ao lançar a 100CR foi sinalizar ao setor privado quais ferramentas são necessárias para estimular e dar escala a este trabalho. E vemos as primeiras evidências disso acontecer com empresas que desenvolvem novos produtos e serviços cujo foco é especificamente as cidades que estão procurando desenvolver sua resiliência.
Para dar apenas um exemplo recente, em Los Angeles, três empresas do setor privado – a empresa de dados e análises Resilient Solutions 21, a líder de SIG Trimble e a empresa de imagens de satélite DigitalGlobe – se associaram para desenvolver uma nova ferramenta para ajudar as cidades a entender os efeitos do calor extremo.
Um dos grandes desafios postos para Los Angeles é o que se chama de “efeito de ilha de calor urbana”. Por causa das ruas e edifícios de concreto, as cidades ficam mais quentes durante o dia do que as áreas de entorno e não resfriam rapidamente à noite. A nova ferramenta irá usar tecnologia de ponta para identificar e analisar quais superfícies contribuem mais para o efeito de ilha de calor, municiando os responsáveis pelo planejamento urbano com as informações necessárias para enfrentar o desafio com maior precisão.
E vemos outras empresas do setor privado entrelaçar a resiliência urbana nas operações de seus negócios também. A AECOM, gigante da construção civil, contratou um novo Diretor Global de Resiliência, com a função de conectar e aumentar a resiliência e adaptação ao clima do conjunto de serviços da empresa. A SwissRe, a proeminente seguradora, modificou a visão da empresa para os seguintes termos: “Nós Tornamos o Mundo mais Resiliente”. Pense sobre isso. A missão central da empresa agora diz respeito à construção da resiliência. E a Amec Foster Wheeler, empresa britânica de engenharia, está implementando uma estrutura de resiliência em seus projetos hídricos, visando a agregar valor no longo prazo.
O que é mais impressionante nessas iniciativas e mudanças de políticas é que as empresas chegaram à decisão de realizá-las por conta própria, sem o estímulo da 100CR. Os líderes dessas empresas consideraram seriamente as melhores práticas em seus campos de atuação e concluíram que a construção de resiliência tornará suas empresas mais fortes e mais competitivas. E essa mensagem deve reverberar muito além do mundo corporativo.
Animados pelo progresso que fizemos em cidades e no setor privado, nós da 100CR apontamos nossa visão ainda mais alto. Nosso objetivo de longo prazo é nada menos do que disparar a centelha de uma revolução total no sentido de que as cidades avaliem e ajam sobre seus riscos e oportunidades.
Em maio, nossa organização atingiu a marca que nos dá nome. Mas você não precisa ser parte de nossa rede de 100 cidades para priorizar a construção da resiliência. Nós incentivamos todas as cidades a desenvolver estratégias de resiliência. Até o momento, 19 documentos de estratégias foram publicados em cidades ao redor do mundo, identificando as principais prioridades e estabelecendo planos factíveis para alcançá-las. Pegue uma cópia dessas estratégias. Leia-as. Inspire-se com elas. Comece o processo em sua própria cidade.
Não se trata apenas de ações dos governos municipais – se formos real e fundamentalmente mudar nossas cidades, os prefeitos precisam estar confortáveis para extrapolar os limites de suas responsabilidades formais e engajar parceiros em outros níveis de governo, no setor privado e na sociedade civil. Os prefeitos podem definir metas ambiciosas, e fazer o que for preciso para atingi-las – e isso significa construir amplas alianças e usar tanto seu poder de influência quanto seu poder institucional.
A história da resiliência é, de fato, a da colaboração – ela envolve todos os níveis de governo, o setor privado e a sociedade civil, trabalhando em cooperação na direção de um propósito comum: reduzir o risco de catástrofes e, ao mesmo tempo, melhorar a vida cotidiana dos habitantes da cidade.
E certamente os prefeitos e prefeitas devem considerar a contratação de um/a secretário/a de Resiliência em seus próprios governos. Diversos lugares que não fazem parte da rede 100CR – de Minot à Dakota do Norte até o estado de Victoria na Austrália – já têm seus próprios secretários de Resiliência, porque reconhecem o imenso valor do cargo e seu poder de fortalecer comunidades e prepará-las para os desafios que têm pela frente.
Se você pegar uma página do livro que cidades como Nova Orleans, Tessalônica e Porto Alegre estão seguindo – sem falar em empresas como AECOM, SwissRe, e Trimble – e usá-la para institucionalizar a resiliência em sua maneira de pensar e agir, tenho certeza de que você vai achar sua cidade mais ágil em responder às necessidades de seus cidadãos, mais capacitada a entender os riscos que ela enfrenta e, em última instância, mais qualificada para lidar com eles.
Essa é a prática e a promessa da resiliência.

Sobre 100 Cidades Resilientes – Promovido pela Fundação Rockefeller
O projeto 100 Cidades Resilientes ajuda cidades ao redor do mundo a se tornarem mais resilientes para desafios sociais, econômicos e físicos inerentes ao século XXI, escreve Isis Cerchiari Lima, da PR Consultant (Isis.lima@speyside-group.com). O 100CR promove essa assistência por meio do financiamento para um Chefe de Resiliência em cada cidade que liderará os esforços de resiliência; recursos para desenvolver uma Estratégia de Resiliência, acesso ao setor privado, público, acadêmico, ferramentas de resiliência de ONGS; e adesão em uma rede global de cidades parceiras para compartilhar as melhoras práticas e desafios. Para mais informações, visite www.100ResilientCities.org.

Sobre a Fundação Rockefeller
Por mais de 100 anos, a missão da Fundação Rockefeller tem sido promover o bem-estar da humanidade ao redor do mundo. Hoje, a Fundação Rockefeller busca cumprir essa missão através de dois objetivos: promover economias inclusivas que expandem as oportunidades para uma prosperidade mais amplamente compartilhada e criar resiliência, ajudando pessoas, comunidades e instituições a se preparar, resistir e emergir mais fortes de choques agudos e estresses crônicos. Para alcançar esses objetivos, a Fundação Rockefeller trabalha na intersecção de quatro áreas de foco – melhoria na saúde, reavaliação de ecossistemas, segurança de subsistência, e transformações de cidades - para abordar as causas profundas dos desafios emergentes e criar mudanças sistêmicas. Juntamente com parceiros e beneficiários, a Fundação Rockefeller esforça-se para catalisar e escalar inovações transformadoras, criar parcerias improváveis que abrangem todos os setores e assumir riscos que outros não podem - ou não irão. Para mais informações, visite www.rockefellerfoundation.org.