Opinião

"Lula repete a história que já era uma farsa"

Sempre que o sapato aperta, o PT apela à mística das tais caravanas, como se Lula fosse emergir delas purificado e renovado.

<b>Reprodução</b> Lula em caravana no passado
Reprodução Lula em caravana no passado
Por Igor Gielow - Folha de S. Paulo
Publicado em 16/08/2017

Político adora dizer que conhece seu povo, por óbvio. Alguns o conhecem melhor que outros, ainda mais evidente. No Brasil, subsiste uma verdadeira tara esquerdista com certa mitologia relativa a marchas, nas quais líderes messiânicos travam contato com a realidade brutal de seus futuros súditos, digo, governados.
Não creio que haja uma historiografia clara disso, mas é possível arriscar que no Brasil essa fascinação tem origem a coluna Prestes (1925-27), ainda que a natureza brutal do movimento seja esquecida de forma seletiva por quem o enaltece. O mesmo ocorre na China, com a Longa Marcha (1934-35) que viu a emergência do líder comunista Mao Tsé-tung.
Na falta de colunas militares, o que restou da esquerda brasileira se derrete pelas Caravanas da Cidadania empreendidas por Luiz Inácio Lula da Silva entre 1993 e 1996. Foram 26 Estados e 359 cidades visitadas de forma bem mambembe, ainda no espírito do velho PT.
Naquele ponto, o partido vivia em negação. Recusara apoio a Itamar Franco no pós-Collor, criticara o Plano Real como enganação e acabara derrotado por um ministro da Fazenda que só tinha um ativo a apelar à toda a população: a nota do real. Em resumo, era a antítese da ideia de entender o que "o povo" queria. Em 2001, uma versão mais "light" do processo foi repetida, mas aí estamos falando de pré-campanha eleitoral pura e simples.
Sempre que o sapato aperta, o PT apela à mística das tais caravanas, como se Lula fosse emergir delas purificado e renovado, um Getúlio deixando sua fazenda rumo ao Catete (naturalmente contando com um final feliz).
A edição petrolão da coisa começa nesta quinta (17) na Bahia e correrá o Nordeste. É pregação para convertidos, já que o apoio à figura de Lula é enorme na região, seja pela memória afetiva ao filho da terra, seja por identificação com os programas de inclusão social que são mais prevalentes naquela área —que vem sentindo especialmente os efeitos da crise econômica gestada, ironicamente, pelo PT.
A classe média que o levou ao Planalto com a promessa de responsabilidade econômica em 2002 perdeu-se nos mensalões da vida, e não será por lá que o ex-presidente vai resgatá-la. É capaz até de encontrar alguma hostilidade no caminho, das franjas que por ora estão apoiando o radicalismo de Jair Bolsonaro, o que ajudaria a compor o quadro de vítima a que Lula se propõe desde que afundou de vez na Lava Jato.
Serão previsíveis imagens de "banho de povo", com criancinhas famélicas a acarinhar o nhonhô provedor. É capaz até de inaugurarem de novo algum trecho da transposição do São Francisco. Para fidelizar o eleitorado petista que logrou recuperar após o impeachment, o que já é um feito em si, parece que estará de bom tamanho.
Ao fim, contudo, será um grande embuste, até porque se tem algo que político rodado conhece é a realidade de seu país. O que realmente interessa é o que ele propõe fazer sobre ela, e tirando "lutar contra as reformas" e torcer para o governo Temer continuar o miserê que é, não se conhece plano de Lula ou do PT. Pulando a etapa "tragédia" no chavão máximo do vovô Marx, é hora de a comédia burlesca apresentar-se como repetição da história, que de todo modo já era farsesca.
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Falando em farsa, a novela da revisão da meta fiscal é uma daquelas de mau gosto e final infeliz. Quando a base da discussão era um buraco de R$ 139 bilhões, os caraminguás que os políticos cobraram de Temer por terem rejeitado a denúncia contra o presidente e a vontade de gastar um extra no ano eleitoral são rematada indecência, mas um suspiro perto do tamanho do problema.

 

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Igor Gielow é repórter especial. Na Folhadesde 1992, foi repórter, editor, correspondente, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasília.