Mundo

Um estadista, procura-se

O país requer um estadista para prosseguir na caminhada de recuperação de seus gloriosos destinos que honram a história mundial. O nó de Angola...

<b>Reprodução</b> Mapa de Portugal
Reprodução Mapa de Portugal
Por Mauro Lobo - Correspondente em Portugal
Publicado em 26/01/2018

Tenho um querido amigo português que, ao tentar fazer pilhéria, expressa um sentimento, um fundo sentimento dele e, talvez, de milhares de almas. Sentencia ele, respiro longo, como se estivesse olhando a realidade desejada mas não factível: Portugal precisa de um marquês de Pombal. Um novo Pombal. Em outras palavras, o país requer um estadista para prosseguir na caminhada de recuperação de seus gloriosos destinos que honram a história mundial.

Conformado, admito que não é tarefa fácil. Ao verificar a galeria dos políticos com protagonismo no atual cenário nacional, são opções zero, constato eu. O que fazer?
O debate nacional caiu de nível. E não é de hoje. Faz tempo que picuínhas recheiam as discussões e conversas na Assembléia da República. De prazo recente, cito: o ministro das Finanças pode ou não deve receber convite para ir aos jogos do Benfica?!. O Panteão Nacional pode alugar espaço para eventos comerciais? Fulano ou beltrano deve casar-se? Na mixórdia da comunicação social, o irrelevante se torna ainda mais irrelevante, ao misturar temas públicos com mexericos de comadres.
O avanço economico e social de Portugal é inegável. Ajudou a desfazer, em parte, a imagem de um país atrasado vis a vis suas contrapartes na Europa. Conquistas essenciais nas áreas políticas ajudaram a repor o país no mapa da atenção mundial.
No entanto, a cada dia que passa as mesmices despontam, com efeito ainda mais acentuado quando contrapostas com a época das Descobertas. O que houve, o que aconteceu com esse maravilhoso país que retraçou o mapa-mundi?
Essa interrogação me persegue, e não encontrei resposta adequada a essa doce angústia de saber o que realmente aconteceu ao pequeno que pariu um gigante: Portugal pariu o mundo hoje conhecido e reconhecido.
O NÓ DE ANGOLA
A relação de amor e ódio entre Portugal e Angola parece ter emergido ao primeiro plano novamente. Apesar das pomposas declarações públicas sobre a sintonia fina dos dois paises, nas águas profundas a agitação é grande. Tudo por causa de uma investigação sobre lavagem de capitais envolvendo o ex-vicepresidente do país africano, Manuel Vicente. O inquérito avançou até à esfera judicial, onde estão sendo julgados, além do angolano, empresários, advogados e até um procurador da República portuguesa.
A denominada Operação Fizz tenta encontrar a origem da movimentação de elevadas somas de dinheiros, empregadas na compra de apartamentos de luxo, na rica zona do Estoril, por Manuel Vicente e familiares e amigos, estes, considerados testa-de-ferro. Uma das unidades teve o custo de venda de 3.700 milhões de Euros.
Já na fase de audiências num dos tribunais lisboetas, o processo foi agora desmembrado em dois, o do ex-vicepresidente angolano transformado em peça judicial isolada.
Angola quer porque quer o envio da ação para o foro angolano, onde, segundo a tese de Luanda, o inquérito deveria correr. As autoridades portuguesas discordam, até pela razão simples de que dificilmente, no entender delas, o inquérito teria alguma consequencia, ou seja, a punição de Manuel Vicente, que, aliás, desde começo se recusou a ir a Lisboa depor.
O primeiro-ministro Antonio Costa e o presidente de Angola João Lourenço se encontraram em Davos, na Suiça, para debater o conjunto das relações luso-angolanas, segundo o governo. Mas custa a crer que o caso Manuel Vicente não tenha sido discutido ao pormenor. Notas oficiais apenas mascaram a realidade, conforme analistas diplomáticos, para os quais é grande o mal estar com esta ação judicial. Vale lembrar que Manuel Vicente é uma estrela de brilho no firmamento do poder em Angola. Amigo do atual presidente, foi também dirigente da poderosa Sonangol, a petrolífera angolana.
VENTO A FAVOR
As brisas continuam a encher as velas da caravela portuguesa no campo economico, especialmente na área de turismo. A Associação de Hotelaria de Portugal revelou que 61 novos hoteis serão inangurados no correr de 2018, acrescentando 4.500 leitos ao sistema (veja gráfico). Lisboa lidera a lista, seguida da cidade do Porto. Os investimentos totais passam de 2 bilhões de Euros.
DOCUMENTO PRECIOSO
Sob o título CARLOTA JOAQUINA FOI ÀS COMPRAS (e gastou 15% da despesa do Estado) o jornal Público veicula interressante matéria sobre um histórico documento. Datada de 1816, a peça registra compras que a rainha Carlota Joaquina fez em Paris e que foram entregues no Rio de Janeiro, onde se encontrava exilada com o marido Dom João VI.
Distribuidas em 8 caixas, as encomendas variavam de lencinhos de mão (560) a cosméticos e jóias, totalizando gastos de 1.103.709,13 Reais. Parte das compras se destinava a compor o enxoval das princesas Maria Isabel e Maria Francisca de Assis, que iriam casar com dois dos seus tios. Por isso, certamente, havia nos caixotes 144 camisas e 228 pares de meias, segundo descrição do documento, detalhadamente escrito em francês e resumido, ao final, em espanhol, língua materna de Carlota Joaquina de Bourbon.
Nascida em Espanha, a rainha era filha do rei espanhol Carlos IV, e chegou a Lisboa com 10 anos de idade, já comprometida com D. João, que se tornara príncipe herdeiro com a morte do irmão primogênito. A lista de compras foi comprada por intermédio da leiloeira Sotheby’s e do antiquário S.J. Phillips, e se encontra em bom estado de conservação, segundo a diretora do Palácio Nacional de Queluz, onde Carlota passou os dias finais de vida.