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A geringonça balança

Primeiro-ministro Antonio Costa já pagou duas das faturas lançadas pelo presidente

<b></b> Antonio Costa
Antonio Costa
Por Mauro Lobo - Correspondente em Portugal
Publicado em 19/10/2017

 

O atual governo de Portugal, também conhecido como geringonça, está em plano inclinado na popularidade. Os incêndios do final de semana provocaram ondas de indignação nacional, culminando com a intervenção direta do presidente da República no processo político, uma prerrogativa constitucional raramente utilizada. Marcelo Rebelo de Sousa, em discurso na televisão, deu um ultimato ao primeiro-ministro Antonio Costa: ou se mudam as coisas, ou tomarei providências.
Costa já pagou duas das faturas lançadas pelo presidente: nomeou um novo ministro da Administração Interna (MAI), e pediu desculpas ao povo português, atitude prosaica na vida política mas que o socialista, estranhamente, ignorou até quarta-feira, quando compareceu ao Parlamento para o debate quinzenal. O novo titular do MAI é Eduardo Cabrita, jurista de formação e de longa vivência na máquina pública.
Incêndios, em Portugal, se tornaram quase parte do cotidiano durante o Verão. Mas, desta vez, os fogos sairam do controle em duas ocasiões: em junho, em Pedrógão Grande, quando morreram 64 pessoas, e agora, com dezenas de aldeias sendo atingidas, com impacto maior em Viseu e Leiria, sedes de Distrito. As 36 vítimas do final de semana aguçaram o impacto na consciência nacional, e o presidente da República surfou na onda: visitou locais atingidos, abraçou parentes das vítimas, transmitiu emoção em grau elevado e falou à Nação em cadeia de rádio e televisão.
Sobrou recados para todos os protagonistas políticos, a começar, obviamente, do primeiro-ministro Antonio Costa. Seguiu-se uma advertência aos parceiros do Gabinete, o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda, para que definam suas reais intenções em participar do governo, sem as oscilações de humor que têm marcado a convivência na geringonça. O presidente parece se ter cansado do movimento pendular dos dois partidos. Ora, apoiam, ora atacam, como se de oposição fossem, colocando em risco a estabilidade política nacional.
Ninguém tem a ganhar se o presidente for obrigado a convocar eleições parlamentares antecipadas.
Os partidos de oposição, CDS e PSD, se alvoroçaram afoitamente ao pedir a demissão de Antonio Costa. A deficiência da máquina estatal, não apenas no caso dos incêndios, tem sido uma constante nos 2 anos do atual Gabinete, mas é pouco provável que o presidente deseje colocar em risco os avanços na economia. Instabilidade política é tudo o que Portugal não precisa atualmente. segurança nacional, o roubo evoluiu para um quadro de galhofa: encontraram as armas (menos a munição vinculada) numa aldeia a 30 quilômetros do paiol, depois de uma denúncia anônima.
Outro episódio que marcará a falta de rumo da máquina estatal, nos debates se desenhando no horizonte, é o do assalto aos paióis do Exército em Tancos, freguesia de Santarém. Quando o roubo se tornou público, pareceu que o mundo estava a desabar. A hipotética ameaça à segurança nacional, como exageraram nos discursos os líderes da oposição, se transformou numa monumental galhofa: as armas foram encontradas a 30 km do local do assalto, na trilha de uma denúncia anônima.
O ministro da Defesa, José Azeredo Lopes, deu sua quota pessoal para a confusão, ao admitir que até poderia não ter havido o assalto. A opinião pública, pelos jornais, reagiu com espanto. Como pode, um roubo que não foi roubo? – era a indagação corrente. Com semblante de quem vive a contar nuvens, Lopes defendeu sua tese com convicção, até que o assunto caiu na tumba das irrelevâncias.
Ressurgiu esta semana. Mas tenho dúvidas que a oposição insista em transformar o tema em assunto de segurança nacional, novamente. A cabeça do ministro, esta, sim, será pedida diuturnamente.