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Costa, o grande vencedor

O governo Antonio Costa está esgrimindo com extrema cautela os avanços do crescimento da economia. Isaltino de Morais esmigalhou seus adversários (13 no total, o mais vasto conjunto de candidatos num só Conselho, o de Oeiras).

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<b>Reprodução</b> Primeiro-ministro Antonio Costa e seu protegido e vencedor em Lisboa, Fernando Medina.
Reprodução Primeiro-ministro Antonio Costa e seu protegido e vencedor em Lisboa, Fernando Medina.
<b>Reprodução</b> Isaltino de Morais
Reprodução Isaltino de Morais
<b>Reprodução</b> Passos Coelho
Reprodução Passos Coelho
Por Mauro Lobo - Correspondente em Portugal
Publicado em 02/10/2017

O primeiro-ministro Antonio Costa comandou uma vitória histórica do Partido Socialista nas eleições municipais realizadas em todo o país. O PS conquistou 157 presidências de Câmaras (equivalentes a prefeito, no Brasil), incluindo a de Lisboa, a mais importante. Para tornar o triunfo ainda mais saboroso para os socialistas, seu mais tradicional rival, o PSD, foi esmagado nas 17 maiores cidades portuguesas. A saraivada eleitoral do PS atingiu também seu aliado na governação central, o Partido Comunista Português. 

O PS desalojou a esquerda no distrito de Beja, continuou no poder em Castelo Branco, Coimbra, Leiria, Amadora, Odivelas, Gondomar, Gaia, Matosinhos, e obteve outro nocaute arrasador em Almada, desalojando a esquerda deste enorme conselho da Grande Lisboa. Para que a euforia não se transformasse numa tentação absolutista, o candidato independene Rui Moreira ficou com a câmara do Porto.
Na somatória dos votos nacionais, o PS levou 38% (dois pontos acima das legislativas de 4 anos atrás), a direita desceu de 36,8% para 34,7%, em igual época comparativa. O PCP cai de 11% para 9,5%.
Do outro lado da batalha, Pedro Passos Coelho, ex-primeiro-ministro e atual chefão dos sociais democratas, está a um passo de ser derrubado por seus soldados. Não é a derrota em si que machuca o PSD, mas a dimensão humilhante do fracasso em Lisboa e na cidade do Porto, onde elegeu apenas 1 vereador. Na capital, a candidata do partido, Teresa Leal Coelho ficou em terceiro lugar, com 11,23% dos votos. Ao assumir a derrota, Pedro Passos afirmou que não deixará de ponderar devidamente os resultados, fará uma “reflexão pessoal” a respeito da renúncia e anunciará sua decisão no decorrer da semana.
IMPLICAÇÕES
As chamadas eleições autárquicas, programadas para o intermezzo do mandato de 4 anos do primeiro-ministro, servem para avalizar ou desautorar programas do governo central. Por mais que alguns políticos insistam em desvinculá-las do plano nacional, é inevitável que reflitam o humor da sociedade com o comportamento do Gabinete, especialmente no campo econômico. A obviedade parece gritante: se o governo vai mal no conjunto do país, dificilmente obtém boa resposta das urnas nos municípios. E, até aqui, o Gabinete chefiado por Costa tem dado certo.
Por coincidência ou não, as notícias positivas não cessam seu fluxo. A agência de classificação de crédito Moodys elevou a qualidade da dívida de Portugal, retirando-a da categoria de lixo. Às vésperas do pleito, o país foi escolhido o destino turístico de 2017, passando por cima de portentosas cidades como Paris, Roma, Madrid. A taxa de desemprego caiu para 8,9%, a menor desde 2010. E a população mantêm-se otimista diante das perspectivas de médio prazo.
Antonio Costa terá trabalho duplicado daqui para a frente, a começar do Orçamento do Estado para 2018, peça chave da administração.Seus aliados no poder, PCP e BE, vão apresentar faturas altas para permanecer na coligação, talvez alegando que se tivesse sido dado maior enfase nos programas sociais a dupla de esquerda apresentasse melhor resultados nas urnas. Costa vai atuar como trapezista, socorrendo a um e a outro na medida e na hora certa.
A frustação com a perda de algumas freguesias e conselhos machuchou o orgulho comunista, especialmente as de Barreiro e Almada. Sede de industrias meta-metalúrgicas, faziam parte do chamado círculo vermelho que envolve a Grande Lisboa.
Não será surpresa se as greves, especialmente no setor público, irromperem durante outubro e novembro e dezembro. Previstas duas já e de fortes efeitos político-sociais: as dos Enfermeiros e Médicos. Misturada à distribuição do bolo das receitas no OR, vem acoplada a velha reivindicação do descongelamento das carreiras profissionais da máquina estatal, a maioria estagnada faz mais de 10 anos. Caso dos gerentes e outros profissionais da Caixa Geral de Depósitos que não recebem majoração salarial desde 2008.
O governo Antonio Costa está esgrimindo com extrema cautela os avanços do crescimento da economia. Coincidência ou não, no mesmo dia da divulgação dos resultados eleitorais, o ministério das Finanças soltou nota oficial a informar que a Dívida Pública de Portugal alcançou estonteante valor de 250 bilhões de Euros, em agosto, ultima estatística disponível. Esse valor equivale a 132 % do Produto Interno Bruto. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa elogia a condução da política economica, mas vive a lembrar que tal dívida é escandaloso.
UM VITORIOSO SOLITÁRIO
Isaltino de Morais esmigalhou seus adversários (13 no total, o mais vasto conjunto de candidatos num só Conselho, o de Oeiras), arrebatando a presidência da Câmara da qual foi expulso e preso por corrupção. Fez maioria absoluta, e não precisa compor com nenhum vereador para tocar a administração. Um homem é um case especial na política portuguesa. Baixinho, sem charme especial mas dotado de um sorriso largo que envolve os eleitores, Isaltino dirigiu o conselho durante quase 20 anos.
No discurso da vitória, prometeu governar com todas as correntes políticas, mas duvida-se que não deixe a pão e água o atual presidente Paulo Vinhas, que fora seu vice antes da prisão, e a quem acusou de traição. O rouba mas faz, pilar do ademarismo.