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Farofeiros, go home

Em Barcelona, na Espanha, ônibus de turismo foram atacados

<b>Reprodução</b> Mauro Lobo
Reprodução Mauro Lobo
Por Mauro Lobo - Correspondente em Portugal
Publicado em 14/08/2017

É já conhecido o mau-humor dos parisienses diante da invasão de turistas estangeiros, principalmente durante o verão em França. Mas esse menosprezo nunca contemplou o uso da violência ou dos protestos abertos, como está acontecendo agora em cidades da Europa. Começou em Barcelona, onde ônibus de turismo foram atacados, hotéis, pichados e invadidos, visitantes, agredidos. Com a velocidade de um virus cibernético, a onda se espalhou, chegou a Veneza e ameaça envolver outras praças europeias.
Aparentemente, não há razões plausíveis para essa repulsa de grupos organizados ao turismo de massa. Na verdade, é difícil identificar um ponto central para essa irrupção de xenofobismo, se considerarmos que, em larga medida, o turismo contribuiu e continua ajudando a recuperação, por exemplo, da economia da Espanha. Os ativistas antiturismo coletivo alegam que suas cidades estão a perder a identidade própria, que seu cotidiano sofre alterações indevidas, e ( aqui se acende o sinal de alerta do potencial risco político-ideológico) os estrangeiros são sujos e maleducados.
Por agora, os grupos de protestos são minoria numericamente desprezível. Acontece que o turista em visita a Europa, afora a sedução da História, busca a segurança urbana, o poder de ir e vir sem arrastões ou exercício de balas perdidas, como no Rio de Janeiro. Ser retirados à força de ônibus, xingados e até agredidos não está no programa dos visitantes. Os governos ostentam números crescentes do impulso economico e social proporcionados pelo turismo. Esse é um argumento sólido, apoiado na realidade, mas quem identifica racionalidade alguma nessas manifestações?
Na Espanha, o primeiro-ministro Rajoy fez um apelo a paz e as boas maneiras, numa tentativa de evitar desistências de turistas, principalmente nessa época de verão. Aqui em Lisboa, os agentes econômicos ligados ao turismo se arrepiam só de pensar que a marola de Barcelona desague na capital e, por efeito do modismo, se dissemine pelo restante do país. O governo também não dissimula o pavor diante desse potencial tsunanmi. O turismo rendeu a Portugal, no ano passado, quase 13 bilhões de Euros, ou 1.4% do PIB.
O Diário de Notícias, um dos mais conceituados jornais portugueses, publicou na edição de domingo passado um artigo com o título TURISMOFOBIA, UM PERFEITO ABSURDO, em que alinha motivos variados para protestar contra esses protestos. A jornalista que o assina, Joana Petiz, lamenta esse tipo de manifestação, mas, a certa altura do texto, cai numa contradição feia ao admitir que na França é compreensível o protesto, por causa do excessivo número de turistas. Critica os portugueses que estão a reclamar dos turistas, por entender que Lisboa recebe apenas 5 milhões de visitantes...
De quando em vez este repórter se pega em flagrante ao admitir, digamos, coisas aparentemente absurdas. Como a hipótese, que não vejo muito distante de se transformar em fato, de as viagens internacionais serem controladas de alguma maneira. Não sou expert no tema, mas vislumbro a idéia de grupos serem sorteados, como única alternativa a esse enxame de gentes perambulando mundo afora.
Os aviões estão cada vez maiores, os aeroportos se esticam como puxa-puxa, trens adquirem velocidades espantosas, mas nada disso parece suficiente para conter as hordas de turistas. Os números atuais impressionam: mais de 500 milhões de visitantes indo ou voltando de ou para algum lugar do planeta. Esse vai-e-vem cresceu espetacularmente por efeito da entrada dos chineses no circuito das grandes cidades, principalmente as capitais europeias.
Visitar o Louvre, a Torre Eiffel ou Versailles se transformou num exercício de paciência de monge e de resistência de maratonista, tamanhas as filas onde se encontram... quem? Os chineses, na sua grande maioria. Assim acontece no Museu do Prado, na catedral da Sagrada Familia, na Espanha. A ONU ameaça retirar de Dubrovnik o título de Patrimônio da Humanidade, por causa dos estragos que os turistas estão a fazer nas muralhas da medieval cidade croata. Ou controla o fluxo turísticas, resguardando os edifícios históricos, ou perderá a distinção internacional.
Esses protestos às vezes saem do noticiário da mesma forma inexplicável como apareceram. Pode ser, mas o contrário também pode ocorrer, por modismo, por falta do que fazer, ou por nenhuma das coisas plausíveis e que, no entanto, entram no cotidiano do mundo sem que se aperceba. Como seria a tradução de FAROFEIROS para as diversas línguas? Logo saberemos nas redes sociais...

PASSO ENVIESADO
O ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho fez um discurso no limite da xenofobia, ao criticar duramente a nova Lei da Nacionalidade. “O que é que vai acontecer ao país seguro que temos sido se se mantiver essa possibilidade de qualquer um viver em Portugal”, disparou em tom de interrogação o lider do PSD. Passos Coelho não se conforma com a nova legislação imigratória, que facilita a obtenção de vistos de trabalho e de residência.
Ele discursou durante uma reunião de seu partido, na freguesia de Quarteira, no Algarve, perante um público de 2 mil afiliados do PSD. Os partidos políticos em Portugal costumam aproveitar os meados das férias para marcar a retomada da agenda política, em Setembro. Como a maior parte dos políticos se enfurna nas praias algarvias, é comum os encontros se concentrarem na região.
Analistas políticos consideram que a posição de Passos, além de inadequada, politicamente, emerge em um momento em que grupos xenófobos voltam às ruas, agora a pretexto de protestar contra o turismo de massa. Vez por outra a Europa derrapa nesse tema, emulando posturas homólogas em outras regiões, como se viu no final de semana, na Virginia. Os partidos no poder em Portugal, atualmente - Socialista, Comunista e Bloco de Esquerda - devem reagir ao discurso do dirigente pessedista.
PASSO ATRÁS
O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, vetou lei do Parlamento que proibia a Carris (empresa municipal de transporte urbano) de aceitar participação acionária de capitais privados.
É o velho cacoete dos partidos de esquerda portugueses: estatizar, nacionalizar. Experiências vividas em paises diversos, com realce para o Brasil, demonstram que esse é o caminho mais rápido para que a corrupção se instale e predomine na gestão das empresas do Estado. Segundo a Constituição de Portugal, o veto presidencial só pode ser anulado mediante os votos de 60 por cento dos deputados. Esse cacife os partidos governistas não o têm. Passos Coelho garantiu ontem que o PSD manterá o apoio à decisão presidencial.