Economia

76% da população urbana do País vive em situação precária

Novo levantamento do IBGE mostra em que situação vivem os brasileiros nas áreas urbanas do País e escancara desigualdade social.Três em cada quatro pessoas não vivem em situação adequada no País. Melhores condições estão em Brasília.

<b>Reprodução</b> Paraisópolis e Morumbi, em São Paulo: retrato da desigualdade
Reprodução Paraisópolis e Morumbi, em São Paulo: retrato da desigualdade
Por O Estado de S. Paulo
Publicado em 22/12/2017

O IBGE divulgou nesta quarta-feira, 20, um retrato das condições de vida nas cidades brasileiras. Três em cada quatro pessoas não vivem em situação adequada no País. Se a renda é alta, falta saneamento básico, por exemplo.
Se há acesso a bens de consumo, como máquina de lavar, falta escolaridade, em outros casos. Ou falta tudo. A pesquisa classificou onze tipos de condições de vida, de A (a melhor) até a K (a pior).
O resultado do estudo escancara a desigualdade brasileira. A cidade que tem a maior parcela da população vivendo nas melhores condições é Brasília – 11,2% do total. O Nordeste está na outra ponta: 59,9% dos habitantes vivem nas piores condições, escreve Roberta Jansen, de O Estado de S.Paulo.
São Paulo está no meio do caminho: apenas 2,8% vivem muito bem, mas em compensação não há ninguém morando de forma mais precária, segundo os critérios do estudo.
A nova publicação do IBGE classificou onze tipos de condições de vida a partir da análise de diversos critérios, como moradia, saneamento, escolaridade, rendimento e acesso a bens de consumo e internet em concentrações urbanas onde viviam 96,2 milhões de pessoas (metade da população brasileira) em 2010.
Na região Sul, está a maior parcela da população urbana (72,2%) em boas e médias condições de vida; enquanto as piores condições foram identificadas, no Nordeste (59,9%) e no Norte (56,3%). De forma geral, três quartos da população urbana (76,1%) não têm boas condições de vida nas cidades.
Embora não tenha acesso ao novo estudo do IBGE, o cearense José Barbosa de Araújo, de 61 anos, compreende bem o que os números querem dizer. Basta olhar para a casa de apenas um cômodo, localizada na área central de Fortaleza, onde ele vive com a mulher. Geladeira, armário, cama, fogão estão lado a lado no imóvel de um cômodo. Nada de máquina de lavar, nem computador. “Estou me virando desse jeito há 16 anos”, diz o vigia.
Fortaleza está entre as cidades que concentram um porcentual considerável da população na pior categoria, a K: 0,6%, de acordo com o IBGE. Mas há situações mais dramáticas. O destaque negativo vai para São Luis (MA), com 15,8% da população vivendo nas piores condições, seguido de Boa Vista. São Paulo e Rio, por exemplo, não têm moradores enquadrados nessa categoria.
De acordo com o novo levantamento, apenas 23,9% das pessoas que moram em cidades têm boas condições de vida (ou seja, foram classificados nas categorias A, B, C e D). E essas “boas condições” sequer estão presentes na maioria dos conglomerados urbanos.
A cidade com o maior porcentual de pessoas na categoria A é, disparado, Brasília. Depois vem Belo Horizonte, Rio, São Paulo, Florianópolis, Vitória, Porto Alegre, Campinas, Salvador, Fortaleza e Curitiba. E é só.
Ou seja, a grande maioria das cidades brasileiras simplesmente não tem um porcentual significativo de pessoas vivendo nas melhores condições. “As categorias A e B estão muito relacionadas ao poder aquisitivo mesmo”, diz o geógrafo do IBGE Maurício Gonçalves e Silva.
“Isso não quer dizer que não existam pessoas com rendimentos altos em outros lugares, mas sim que esse porcentual não é suficiente para saturar aquela área, ou seja, para caracterizar aquela parte da cidade como A ou B.” Na análise do especialista, a identificação desses padrões pode ser crucial para o planejamento urbano. / Colaborou Carmem Pompeu, O Estado de S. Paulo (21/12/2017).