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Pedro Bial: “A relação entre a Globo e o Brasil"

As quase duas horas de entrevista em uma padaria em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo, mostraram que Pedro Bial tem muito a dizer. O ódio na internet faz com que o apresentador prefira ficar distante das redes sociais.

<b>Reprodução</b> Bial
Reprodução Bial
Por El País - Brasil
Publicado em 07/12/2017

Assim que recebeu o pedido de entrevista deste jornal, o apresentador global Pedro Bial disse à sua interlocutora: “Por que será que eles querem me entrevistar?”. Aos 59 anos, o jornalista carioca trabalha há mais de 30 anos na rede Globo, a maior emissora do Brasil – “já sou móveis e utensílios de lá”, diz, brincando, se comparando aos patrimônios materiais devido ao tempo de casa. De fato, é uma das referências na equipe da Globo. Chamada de golpista por militantes da esquerda, e comunista por simpatizantes da direita, a empresa na qual Bial trabalha desde 1981 é hoje um dos maiores símbolos da polarização política vivida no país. Não à toa, se vê no meio do fogo cruzado, sendo alvo da cisão ideológica na qual o país se encontra. “Eu ponho coisas nas redes sociais falando do programa e elas são interpretadas pela direita como se eu fosse um perigoso esquerdista, e pela esquerda como se eu fosse um fascista”, conta. As quase duas horas de entrevista em uma padaria em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo, mostraram que Pedro Bial tem muito a dizer, escreve Marina Rossi, em El País - Brasil.

O ódio na internet faz com que o apresentador prefira ficar distante das redes sociais. “Eu não tenho estrutura emocional e imunidade para frequentar as redes”, afirma. “Eu já fui ameaçado de morte muitas vezes. O cara diz que eu sou esquerdista e eu não sou. Mas caguei também se eu sou ou não sou”. Por isso, não tem Facebook e não usa sua conta no Twitter. Mas menciona as páginas que divulgam pensamentos atribuídos à sua autoria, que, na verdade, não são dele. “A internet tem essa coisa que me dá um nervoso enorme que são frases e frases e frases atribuídas a mim, mas nenhuma é minha. E aí eu cheguei a ter crise de identidade, porque eu que era o falso. O verdadeiro eram os outros”, diz, rindo, enquanto coloca água com gás no café. “É para esfriar", explica. "Ih... você já tá percebendo as minhas manias?”.

A única conta que o apresentador administra pessoalmente - “com cuidado” - é a do Instagram. Ali, vez ou outra divulga os shows do filho mais velho, Theo, 19, que está começando a carreira de músico. Também posta algumas fotos dos convidados do seu programa, Conversa com Bial, talk-show que passa de segunda à sexta-feira no início da madrugada, depois do Jornal da Globo.

 

Na grade da emissora desde maio deste ano, Conversa já contou com personalidades das mais variadas áreas. Do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, passando pelo escritor israelense Yuval Harari, a presidenta do Supremo Tribunal Federal, a ministra Cármen Lúcia, e o general Eduardo Villas Boas, atual comandante do Exército brasileiro,. E, claro, atores globais e cantores com a dupla sertaneja César Menotti e Fabiano. “Eu não frequento as redes sociais, mas fico com o meu ouvido ligado na maioria silenciosa, que é quem ainda decide a audiência na tevê aberta”, diz. “A vitória do Trump, o Brexit, a eleição do [prefeito de São Paulo] Doria, foi a maioria silenciosa [quem decidiu]".

Bial afinou o ouvido para este público majoritário ao longo das 16 edições do Big Brother Brasil que apresentou. “Eu comecei estranhando muito”, diz. “E o Big Brother era um lugar que atraía ódio de todas as naturezas. Inclusive um ódio mais amoroso, que era de quem gostava do correspondente, do jornalista, e se sentiu traído, se ofendia com o fato de eu estar lá vendido, entre aspas, ao entretenimento, e esses falaram coisas horríveis pra mim”, lembra.

As críticas atingiram o apresentador, que já foi correspondente de guerra da rede Globo. "Me sentia magoado, mas hoje entendo melhor". Para ouvir as perguntas feitas pela reportagem, Bial inclina levemente a cabeça para o lado esquerdo, já que teve a audição do ouvido direito comprometida quando uma bomba estourou ao seu lado na cobertura da guerra da Bósnia (1992 - 1995). Esta herança fez com que hoje, a estética do seu programa quebrasse as tradições dos talk shows: o cenário do Conversa com Bial deixa o apresentador do lado esquerdo do entrevistado, ao contrário de todos os outros programas neste formato. O pedido partiu dele mesmo, para que pudesse ouvir melhor seus convidados.

Da época de repórter, conta, não sente saudade. "Tenho orgulho. Não sei como seria cobrir uma guerra hoje, porque hoje eu tenho uma outra relação com o desconforto", diz. "Acho que eu encararia, mas fisicamente já não tenho as mesmas articulações, tenho artrose no joelho", diverte-se. Contrariando o autobullying, a idade não parece ser um impeditivo na vida do apresentador, jornalista, escritor e roteirista. No mês passado, foi pai pela quarta vez. Laura, sua segunda filha mulher, nasceu do casamento com a jornalista Maria Prata. "Vou ter que arrumar um corpo de cardiologistas, porque no momento em que a minha filha de 30 anos (a artista plástica Ana Bial, do casamento com a jornalista Renée Castelo Branco) pegar no colo a minha filha de meses, eu vou cair duro", conta, orgulhoso. Além de Theo Bial, do relacionamento com a atriz Giulia Gam, ele é pai também de José Pedro Bial,15, fruto da relação com a cineasta Isabel Diegues.

 

Ao ser questionado sobre a paternidade à beira dos 60, fica poético. "A vida é longa demais para se morrer várias vezes e por isso é possível nascer várias vezes também", disse, enquanto tirava o blazer para sentar-se à mesa. Para a entrevista, vestiu-se da mesma maneira que se veste para apresentar o programa: calça jeans, camisa e blazer. Chegou à padaria mais cedo que o horário marcado, pediu um sanduíche de presunto parma sem olhar o cardápio. Respondeu a todas as perguntas. Algumas com mais reflexão que outras. "Outro dia me caiu a ficha: caramba, tem menos de 12 meses para as eleições e eu vou chegar na urna com essas opções que estão aí? O que eu vou fazer? Vou anular?".

Talvez porque realmente não saiba o que fazer, não mencionou candidatos ou preferências. Lembrou-se de um episódio no consulado brasileiro nos Estados Unidos em 1994, pouco antes de iniciar a Copa do Mundo. "O Lula estava ali e se comportava como presidente eleito já, cheio de si, com os jornalistas em volta [o petista perderia a eleição daquele ano no primeiro turno para o tucano Fernando Henrique Cardoso]", lembra. "Hoje o contexto é diferente, mas as coisas acontecem. Parece que não tem nada para acontecer, mas há um espaço ali, entre estes dois extremos que existem hoje", diz. "É preciso ver o que vai aparecer no centro e se este candidato terá capacidade de chegar no segundo turno", analisa o apresentador, que se autointitula "um liberal democrata, se você quiser me enquadrar ideologicamente em algum lugar".

Para ele, esquerda e direita estão obsoletas. "Um reproduz o outro e um torna o outro possível, mas nenhum dos dois campos respondem às necessidades do século XXI". Ainda sobre o ano que vem, afirma que pretende atuar no programa, tentando buscar "um nível positivo, de um Brasil que funciona, a despeito de Brasília".

Medo da "sifudência"

Filho de uma família de refugiados, Bial teve pouca convivência com o pai, um alemão que chegou ao Brasil ao lado da mulher, com fortes traumas da Segunda Guerra. "Quem é filho de refugiados entende a grande desestruturação que é ser um refugiado. Você se refugia por causa de uma grande desestruturação nacional, que se reflete numa grande desestruturação familiar e, depois, individual", diz. "O que eu via como uma família aparentemente sólida quando eu era criança, não tinha solidez nenhuma. Acho que por isso, o medo da sifudência [ou seja, se dar mal, usando um eufemismo] talvez tenha me levado ao workaholismo". Diz que já ficou mal por causa do ritmo de trabalho, mas hoje tenta equilibrar. Não faz mais terapia, tendo trocado a psicanálise por coaching.

O vício em trabalho talvez tenha contribuído, por outro lado, para que o apresentador se tornasse prata da casa na Globo, e possa hoje falar com tanta propriedade sobre a emissora. "A relação entre a Globo e o Brasil está longe de ser tranquila. É uma relação que espelha as nossas tensões entre o grande capital e o Estado. A Globo é a catedral da iniciativa privada brasileira". Reconhece que a emissora vem passando por mudanças, e diz que já presenciou "algumas eras" da empresa.

Neste momento, a companhia está lidando com questões envolvendo racismo e assédio. No mês passado, afastou o apresentador estrela do Jornal da Globo, William Waack depois de vazar um vídeo em que ele faz comentários racistas. Em abril, teve de fazer outra gestão de crise depois que veio à tona casos de assédio sexual provocados pelo galã da emissora, o ator José Mayer. Na época, as funcionárias da emissora se organizaram para se manifestar em solidariedade à vítima, a figurinista Susllem Tonani. Diante dos fatos, o apresentador prefere ponderar. "Eu não me considero um cara feminista", diz. "Estou com as mulheres, mas acho a última onda do feminismo muito radical. Mas também reconheço que a emancipação feminina libertou inclusive a nós homens, significativamente", fala, pedindo para se explicar. "É muito difícil ser mulher, historicamente. Você entende por que é preciso existir um dia internacional da mulher, mas eu tenho dois filhos e sei o quanto é difícil ser homem, ser, por exemplo, viril, sem ser grosseiro".