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A polêmica do papel higiênico preto

Marca lança papel higiênico preto com slogan de movimento negro e gera revolta. Campanha com papel higiênico preto repercute no exterior. Depois de papel higiênico preto gerar polêmica, Neogama e Personal se retratam

<b>Reprodução</b> Papel higiênico preto
Reprodução Papel higiênico preto
<b>Reprodução</b> Enrolada no papel
Reprodução Enrolada no papel
Por Veja - AdNews - O Globo
Publicado em 28/10/2017

A campanha foi acusada de racismo por se apropriar do slogan ‘Black is Beautiful’ (preto é lindo), usado pelo movimento negro.
Não foi só no Brasil que a campanha publicitária do papel higiênico preto da marca Personal, fabricado pela Santher, causou polêmica. O assunto foi parar no site do jornal britânico The Guardian e do português Jornal de Notícias.
A campanha foi acusada de racismo por se apropriar do slogan ‘Black is Beautiful’ (preto é lindo), usado pelo movimento negro americano desde a década de 60. No Guardian, a notícia aparecia na lista de mais lidas do site desta terça e quarta-feira, escreve a Veja. O advogado Humberto Adami, presidente nacional da Comissão da Verdade da Escravidão Negra do Brasil da OAB, disse ao jornal que esse episódio de racismo é só o mais recente de vários envolvendo a publicidade. “Esse tipo de anúncio com racismo subliminar deve ser removido, pois reforça o ensino do racismo.”

Os dois sites mencionam o post do escritor Anderson França, que afirmou que “se você digitar ‘black is beautiful’ em qualquer lugar do mundo encontrará referências a Angela Davis, Malcolm X, O Partido Panteras Negras para Autodefesa, Fela Kuti, James Baldwin, Nina Simone. Mas, no Brasil, se você digitar #blackisbeautiful você vai encontrar papel de bunda. […] Aquilo que você usa pra se limpar de excremento, e em seguida elimina, tomado de nojo e aversão. Aquilo que tem apenas uma função: limpar fezes e secar urina de suas carnes, e ir para o lixo. Se isso não é uma demonstração explícita de racismo e humilhação étnica, criminosa, eu perdi alguma aula.”
A publicação britânica ainda explica a seus leitores que, no Brasil, embora mais da metade das pessoas se identifique como pardas ou negras, na publicidade predominam os rostos brancos. “A agência de publicidade Africa, por exemplo, exibe vários de seus funcionários em sua página de Facebook – mas apenas um deles não é branco”, completa.
A atriz Marina Ruy Barbosa, estrela da campanha, escreveu em seu perfil no Instagram:“Peço desculpas às pessoas que se sentiram afetadas. Estou bem triste por tudo isso e espero que entendam que jamais foi feito com a intenção de ofender”.
A agência Neogama, responsável pela campanha, e a Santher, empresa dona da marca, disseram que o único objetivo da mensagem foi o “de destacar um produto que segue tendência de design já existente no exterior”, e que não houve pretensão de nenhum outro significado.
“Refutamos toda e qualquer insinuação ou acusação de preconceito neste caso e lamentamos outro entendimento que não seja o explicitado na peça”, escreveram as empresas.
A agência informou que retirou o slogan da publicidade e pediu desculpas por eventual associação ao movimento negro, “tão respeitado e admirado por nós”, escreveu.
Depois de papel higiênico preto gerar polêmica, Neogama e Personal se retratam

Parece que faz séculos, mas nos anos 1960 a segregação racial nos Estados Unidos era uma agenda pública perpetuada em inúmeras instâncias. Ir à escola, sentar aonde quisesse nos transportes públicos e transitar em certos ambientes era crime para quem fosse negro.
Na luta por direitos e respeito, intelectuais americanos criaram o conceito “Black is Beautiful” que se espalhou pelo mundo e incentivou milhões de pessoas a se orgulharem de suas características.
Décadas depois, a Personal Vip parece que esqueceu toda essa batalha e lança um papel higiénico preto anunciado com o mesmo conceito utilizado para reivindicar representatividade de uma população, escreve Gabriel Grunewald, de AdNews.
A campanha, protagonizada por Marina Ruy Barbosa e criada pela Neogama, procurou romper com a linguagem da categoria e quis agregar irreverência ao novo produto. Clicada por Bob Wolfenson, a atriz aparece vestida apenas pelo papel higiênico em uma alusão ao “pretinho básico” referenciado como peça coringa em qualquer guarda-roupa. 

Rapidamente, a internet percebeu a descomprometida mistura de referências e demonstrou sua desaprovação à ideia por trás da campanha. Nas redes, usuários como Anderson França escreveram textos contrários à estratégia da agência e a pequena fanpage da Família Personal foi alvo de reações negativas
Marca lança papel higiênico preto com slogan de movimento negro e gera revolta
Produto adotou a frase "Black is beautiful", criada na década de 1960. A Personal lançou nesta segunda-feira um novo produto: papel higiênico preto. Para o lançamento, a empresa decidiu usar como slogan a hashtag #Blackisbeautiful, termo usado para caracterizar um movimento criado na década de 1960 por artistas e intelectuais contra o racismo. Por conta disso, internautas brasileiros acusam a empresa de apropriação cultural e de fazer uma
Nas redes sociais, uma internauta diz que a marca "esvazia" o significado da expressão "para promover um papel higiênico preto".
"Negro é lindo. Na década de 60, punhos cerrados se ergueram ao ar para eliminar a noção de que as características naturais de pessoas negras - como cor da pele, traços faciais e cabelo - eram feias. A frase (e a ideia) eternizou. Agora, a Personal pega esta MESMA frase - hoje, hashtag - e ESVAZIA o seu significado para promover um papel higiênico preto. Um tremendo desrespeito aos revolucionários da década de 60. Um desrespeito descomunal a nós negros, que bebemos desta fonte para nos fortalecermos", diz.
Em um outro post no Facebook, o escritor Anderson França também criticou a marca pelo uso do slogan:
"A Santher - Fábrica de Papel Santa Therezinha S/A, detentora da marca Personal, decidiu que aqui no Brasil essa expressão deve se referir não ao histórico de lutas de lideranças pretas americanas e de outras pelo mundo, mas a Santher, numa atitude racista e irresponsável, consciente e deliberada, decidiu que essa expressão deve remeter a papel higiênico, cuja função qualquer pessoa conhece. Esse não é senão um dos mais graves ataques racistas praticados por uma empresa brasileira", diz um dos trechos da declaração de França, escreve O Globo.