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O rito de passagem dos pankararu

Estabelecidos em São Paulo, indígenas preservam rituais e tradições ancestrais

<b>Reprodução</b> Dança dos praiás” no Real Parque, em São Paulo
Reprodução Dança dos praiás” no Real Parque, em São Paulo
<b>Reprodução</b> o ritual “Corrida do Embu”, na aldeia Brejo dos Padres, em Pernambuco
Reprodução o ritual “Corrida do Embu”, na aldeia Brejo dos Padres, em Pernambuco
Por Jornal da Unicamp
Publicado em 02/08/2017

É possível ser indígena na cidade de São Paulo. No bairro Real Parque, localizado na zona sul da capital, a comunidade da etnia Pankararu vivencia o espaço urbano como uma extensão da terra indígena Brejo dos Padres, no sertão de Pernambuco. O cotidiano das famílias respeita os costumes ancestrais. A migração para a capital paulista começou na década de 1940. Hoje eles não se fixam mais no espaço urbano por melhores condições de vida, e sim para estudar, buscar conhecimentos e reivindicar direitos. “A mobilidade entre os pankararu, atualmente, é também uma busca por produção de conhecimento e uma forma de experenciar o mundo”, explica a pesquisadora Arianne Rayis Lovo.

Antropóloga formada pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Arianne escreveu a dissertação “‘Lá, sendo o lugar deles, é também o meu lugar’: Pessoa, Memória e Mobilidade entre os Pankararu”, defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. O trabalho foi orientado por José Maurício Arruti e coorientado por Artionka Capiberibe.

Segundo a pesquisadora, inicialmente os indígenas se mudaram para a capital paulista para trabalhar na construção civil, na edificação do estádio do Morumbi. A etnia sofreu processos de aldeamentos missionários nos séculos XVI e XVII e consequentemente uma miscigenação forçada. Apesar de não possuírem as características comumente atribuídas aos indígenas, “tão difundidas no imaginário nacional na figura do índio genérico”, pontua Arianne, os pankararu ainda mantêm suas práticas e rituais tanto na aldeia quanto na cidade.

No Real Parque acontecem festas e rituais, como a “dança dos praiás”, e as práticas de cura realizadas pelas rezadeiras, que são protagonistas nesse processo. Elas promovem o trabalho de “fechamento” do corpo e das casas, na mediação entre o mundo físico e o espiritual. Arianne estudou como se configuram os espaços domésticos do grupo, se há transformações formais em sua organização social.

O trânsito entre aldeia e cidade foi estudado a partir da observação do cotidiano de uma família que Arianne acompanhou durante a pesquisa. “Os espaços da aldeia e da cidade são coextensivos. Embora separados geograficamente, há trocas de mercadorias, de bens e comida, os indígenas vão à aldeia sempre que necessário para visitar parentes ou participar de rituais. Da mesma forma os que vivem na terra indígena vêm a São Paulo buscar educação, atendimento médico e visitar parentes. Há, até mesmo, aqueles que se descobriram indígenas na cidade, num processo de autoafirmação identitária”, salienta.

No bairro paulistano, os pankararu possuem redes de relações, há uma organização política e administrativa favorecida pela associação “SOS Pankararu”. A associação facilita o acesso ao ensino superior. Muitos indígenas se beneficiam do programa “Pindorama”, parceria da PUC-SP com a Pastoral Indigenista da Arquidiocese de São Paulo e comunidades indígenas, que oferece reserva de vagas e bolsas para diversas etnias em cursos da universidade.

Os rituais de cura e benzimento, feitos na aldeia e também em São Paulo, são em âmbito privado e realizados ao longo do ano ou de forma extraordinária. “Trata-se de um costume muito importante para a constituição da noção de pessoa, porque os pankararu acreditam que o corpo está aberto e tem de ser fechado a todo momento”.

O trabalho das rezadeiras é concomitante ao da medicina, em algumas vezes. Arianne acompanhou uma equipe médica que fazia o atendimento dos indígenas na unidade de saúde local. O trabalho de campo foi em continuidade ao início das observações feitas pela pesquisadora, que já em 2015 esteve na aldeia Brejo dos Padres na casa da família que também a recebeu em São Paulo.

Na terra indígena a antropóloga presenciou a “Corrida do Embu” e a “Penitência”, dois rituais que acontecem no mesmo período, da Quaresma. Os pankararu realizam ritos de celebração aos mortos, homenageando tanto aqueles que morreram recentemente (para que sua “travessia” seja tranquila), quanto as lideranças importantes ao grupo, como uma forma de homenagem. “Durante o ritual da ‘Penitência’, eles param nos caminhos da aldeia onde ficam as cruzes dos mortos e rezam. Eles também caminham até a casa de lideranças religiosas como a beata Madrinha Dodô e o messiânico Padrinho Pedro Batista, pessoas que tiveram forte influência entre os pankararu”, observa a autora.

Arianne avalia que embora a questão da demarcação das terras indígenas seja crucial, para o indígena a ideia de território vai além do que foi demarcado juridicamente. “A maneira como eles se apropriam do espaço também é importante porque é o local onde eles estão”. TEXTO PATRÍCIA LAURETTI, FOTOS ANTONIO SCARPINETTI | REPRODUÇÃO EDIÇÃO DE IMAGEM, LUIS PAULO SILVA - JORNAL DA UNICAMP. 

http://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/07/28/do-sertao-selva-paulistana-o-rito-de-passagem-dos-pankararu